Transplante de Medula Óssea
Introdução

TMO – Introdução

A medula óssea é um tecido localizado dentro de todos os ossos do corpo humano e é responsável pela produção e manutenção das três linhagens celulares que compõem o sangue periférico, quais sejam, as hemácias, leucócitos e plaquetas (figura1). Quando ocorre uma disfunção medular, seja pela proliferação anômala  tumoral de células ou pela falta da produção de uma ou mais das séries hematológicas, ocorrerá impacto direto no hemograma, com prejuízo e risco para o paciente.

O Transplante de medula óssea (TMO) é um tratamento empregado nas doenças oncohematológicas, hematológicas, imunológicas e hereditárias. Trata-se de uma terapia já bem consolidada na literatura médica que conta com mais de 30 anos de experiências e publicações.

O histórico do TMO vêm de muitos anos, quando as pesquisas começaram em cães da raça Beagle, pesquisas estas que tentavam responder a basicamente três perguntas: 1) como destruir a medula óssea doente (radioterapia ou quimioterapia?), 2) qual a forma de infundir as células do cão doador no receptor e fazê-las ir até a medula e começarem a proliferar e dar origem ao novo tecido produtor da linhagem hematopoética. E, finalmente, 3) como fazer para o cão não rejeitar a medula infundida? Tais perguntas foram solucionadas ao longo dos anos 60 e 70 com investimentos e muita determinação, principalmente por parte de uma equipe de médicos americanos de Seattle, liderada pelo Dr E. Donnall Thomas no Hospital Fred  Hutchinson Cancer Research Center .

Em 1990, o Dr Thomas foi agraciado com o prêmio Nobel de medicina pelo trabalho experimental, clínico e a criação do TMO.

Nos anos que se seguiram, diversos pacientes foram submetidos a transplante, e muitos outros aspectos tiveram que ser entendidos, tanto nos casos de sucesso quanto nos de insucesso.  A atenção cresceu para a dose da quimio e/ou radioterapia, para as complicações infecciosas, a rejeição, a doença do enxerto contra o hospedeiro, a recaída da doença de  base, os problemas transfusionais, custos, complicações medicamentosas, e etc.

Estes questionamentos trouxeram consigo um saldo extremamente positivo, pois quase que obrigaram os diversos setores, tais como, os laboratórios de genética, de virologia, de microbiologia, de hematologia, os bancos de sangue, as enfermarias, a indústria farmacêutica a darem um salto de qualidade e pesquisa, conduzindo o transplante de medula óssea para um programa de alta eficiência e resultados visíveis, tal qual o é na atualidade.

Hoje o TMO é realizado em todo o mundo, com resultados muito bons, oferecendo a quem precisa deste tratamento, uma real esperança de cura.

No Brasil, o primeiro TMO foi realizado na Universidade federal do Paraná em 1979.  Em 1983 foi inaugurado o segundo centro no Instituto do Câncer na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1988, o programa de TMO foi implantado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e  embora tenha sido o terceiro centro a ser criado, transformou-se rapidamente no centro que mais faz transplantes por mês ( 15 a 20 ), graças a redução no tempo de internação, agilização da fila de espera, resultados positivos e equipe de suporte multiprofissional de alta qualidade. Neste centro já foram realizados mais de 1700 transplantes até o momento. O TMO do Hospital da Clínicas  da USP – São Paulo, é considerado hoje um centro de excelência em transplantes e  é responsável pela implantação de técnicas inovadoras repetidas e respeitadas por outros centros , tais como, a utilização do fármaco bussulfano para condicionar portadores de aplasia medular, um sistema de hospital-dia que dá suporte para os pacientes transplantados sete dias da semana e feriados, com 12 horas de funcionamento, além de resultados superiores aos da literatura internacional com protocolo próprio de tratamento nos pacientes com mieloma múltiplo, já sendo utilizados  por outros países.

Até o momento, foram realizados cerca de 6000 transplantes no Brasil, nos centros cadastrados. Existem centros transplantadores distribuídos em vários estados nacionais, contudo, a grande maioria concentra-se no Sudeste e Sul do país, serviços estes disponíveis a toda população.

O REDOME (registro de doadores de medula óssea) foi implantado no Hospital das Clínicas por volta de 1995 e posteriormente transferido para o Instituto Nacional do Câncer (INCA) no Rio de Janeiro. O REDOME conta com mais de 600.000 doadores cadastrados, com. uma política de expansão e divulgação crescente, que tem tornado real o encontro de um doador não aparentado.  Infelizmente, ainda existe fila para os transplantes não aparentados, diferentemente dos aparentados, cuja a fila de espera é mínima.

O objetivo deste capítulo é situar o transplante de medula óssea no contexto atual, abordando os tipos, as indicações , as fontes de células, os regimes de condicionamentos, a enxertia,  a doença do enxerto contra o hospedeiro, as complicações, os resultados, e as  perspectivas, visando assim facilitar a compreensão do médico quanto a esta modalidade de tratamento.